Imprensa

Governo quer taxar apps e serviços

18 de novembro de 2015

Veículo: Jornal do Comércio

 

O sistema tributário brasileiro é considerado por especialistas bastante rígido e tradicional. Contudo, ao longo dos últimos anos, importantes novidades tecnológicas têm provocado uma reflexão sobre de que forma esses serviços serão tributados. Diante das dificuldades econômicas, o governo tem lutado para manter toda e qualquer arrecadação e criar (ou resgatar) tributos. É o caso da tentativa de volta da CPMF e da criação do Imposto sobre Grandes Fortunas. Enquanto essas propostas não decolam, projetos de lei que prometem tributar serviços prestados pela internet tramitam no Congresso Nacional.

O sistema tributário tenta há anos adaptar-se às mudanças estruturais da globalização e a um sistema financeiro que migra das transações bancárias e do dinheiro em espécie, que facilita a fiscalização das unidades arrecadadoras, para o comércio eletrônico, com a disseminação de sistemas eletrônicos de pagamento.

A Comissão das Nações Unidas para o Direito Comercial Internacional (Uncitral) foi uma das primeiras organizações internacionais a tratar do tema comércio eletrônico, tendo adotado, em 1996, um modelo de lei sobre as alternativas de intercâmbio e informações digitais. Voltada às relações de consumo e segurança jurídica do meio, busca a adaptação da legislação interna de vários países, ela também apresenta um esboço sobre a tributação na internet. O maior avanço refere-se à estipulação de princípios que norteiam o legislador a regular as transações virtuais, entre eles o de facilitar o comércio, convalidar as operações realizadas por meio de novas tecnologias, incentivar a aplicação dos novos meios de comunicação, promover a uniformidade do direito aplicável à matéria e apoiar novas práticas comerciais.

Entre os projetos mais comentados está o Projeto de Lei Complementar (PLC) nº 363/2013, conhecido como Imposto do Netflix, que passará a taxar, além do serviço de vídeos pela internet, lojas de aplicativos, Spotify, WhatsApp, comercialização de jogos pela internet, entre outros. A lei aguarda apreciação do Senado. O texto prevê ampliar a incidência do Imposto sobre Serviços de Qualquer Natureza (ISS), de responsabilidade dos municípios, a fim de englobar serviços que não eram tributados e que têm grande rentabilidade.

Projeto pode afugentar investimentos

A aprovação de uma lei para cobrança de serviços eletrônicos e aplicativos para celular terá reflexos tanto para as empresas quanto para o contribuinte. “Um dos grandes problemas desse projeto é o fato de tratar genericamente de serviço de streaming e não determinar quais deles serão cobrados”, afirma o advogado Marcelo Dias Freitas, consultor e especialista em Direito Tributário do escritório Bertolucci & Ramos Gonçalves Advogados. “Desta vez, além de sentir no bolso, os contribuintes irão sentir nos momentos de lazer”, diz Freitas.

A Câmara aperfeiçoou a matéria, excetuando jornais, livros e periódicos do texto que prevê a incidência sobre a disponibilização de conteúdos de áudio, vídeo, imagem e texto em páginas eletrônicas. O texto da Lei Complementar nº 116/2003 prevê tributação sobre serviços de informática, mas é menos específico. A nova versão define a cobrança do ISS para dispositivos móveis.

O projeto ainda proíbe que os municípios concedam isenções ou reduções do ISS. A ideia é tentar acabar com a guerra fiscal. Atualmente, como cada município possui uma alíquota diferente, as empresas costumam fazer o registro somente na cidade com ISS mais baixo, mesmo atuando em outros locais. Pelo projeto, a alíquota mínima será de 2%.

Para o contador Ricardo Kerkhoff, projetos como o PLC 366 podem acabar desestimulando a inovação e afugentando investimentos de empresas inovadoras no País. “No meu ponto de vista precisamos sim incentivar a criação deste tipo de inovação de modo que esta renda gerada pelo recurso seja classificada de cunho intelectual, sirva de remuneração para seus criadores e, só então, gere tributação. Neste aspecto, entendo que nossa matriz tributária está completamente equivocada quando no próprio PLC citado acima, por exemplo, estabelece que as todas as prefeituras ficam proibidas de isentar estes segmentos do ISS”, diz.



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